Sábado, Setembro 11, 2010

A Saga

Siddhartha Gautama, ou o Buda, alcançou o que procurava após anos de uma busca, pela qual aprendeu vários caminhos diferentes, nenhum dos quais lhe apaziguavam. Sua busca havia encerrado, diz a lenda, quando ele ao ver um pai e um filho em um barco, e o pai ensinava-o a afinar uma espécie de violão, quando ouviu-o dizer sobre as cordas: "Nem tão apertado, nem tão frouxo". Foi dai que Buda desenvolveria sua filosofia do "caminho do meio".

Sadhu Sundar Singh foi um indiano que desde criança se inquietava por encontrar algo, e também partiu numa busca, numa saga pessoal. Não se contentou com a religião de seus pais, de onde nascera, e após muitos anos, tornou-se cristão. Ficou famoso por suas viagens à pé ao Tibet, e seu modo de vida humilde, em que ele tentava ao máximo imitar ao seu mestre.

A história está repleta destes exemplos. Gente que não se conformava com as respostas que lhes deram quando crianças, e saíram em busca de algo. Alguns mudaram de religião, outros mantiveram a sua, outros tornaram-se agnósticos, ateus, panteístas, e por aí vai. Qual a semelhança entre eles?

Observe, no entanto, a vida de grande parte das pessoas que seguem hoje uma das grandes religiões monoteístas. Qual a possibilidade que há de um cristão nascido e crescido em ambiente fundamentalista, de se indignar com a fé que aprendeu, e empreender uma busca pessoal por uma resposta?

A base que aprendi, desde criança, foi a de que eu estava sendo apresentado à "Verdade Absoluta". Deveria eu aceitá-la incondicionalmente, sem questionar, sob a pena certa de punição. Era constantemente advertido com parábolas como a do "filho pródigo". Se eu saísse, cairia nas mãos do diabo, e sofreria muitas misérias, para depois acabar voltando ao rebanho (sim, esta era uma palavra usada, nós éramos "rebanho"). Por quê eu deveria sair de lá, se eles detinham todas as respostas, e fora de lá era o domínio de Satanás?

Minha religião era meu inferno

Há pessoas que hão de viver suas vidas, e nunca ficarão incomodadas pelas verdades que lhes foram apresentadas, pois para elas, estas não apresentam exatamente um problema. Quantos budas existem? Quantas pessoas, dentre as 85 bilhões que já passaram por aqui, empreenderam sagas pessoais em busca de algo que nem elas sabiam o que era?

Exemplos como o de Buda me despertam para esta questão. Todos nós somos, em algum momento, escravos de nossa cultura. Para muitos, assim estará de bom tamanho. Mas para mim não estava, o que me apresentaram não era suficiente, aquela forma de ver o mundo não me parecia coerente, meu modo de pensar estava sempre tolhido pelos dogmas impostos. Eu empreendi então uma saga, sem saber. Alguns podem tentar nos ajudar nessa saga, mas apenas nós mesmos podemos nos livrar da escravidão mental. Eu li muita coisa, muita gente me ajudou (mesmo sem saber), mas quem conseguiu me libertar, a encontrar uma verdade que finalmente me apaziguasse, fui eu mesmo (no meu caso, foi descobrir que nunca terei em mãos a "verdade absoluta", mas posso ser o mais honesto e tentar me aproximar da maneira mais segura possível dela, sem me iludir).

Minha religião me escravizava. Sei que escraviza a muita gente, mas o problema não estava nela, em especial. Não é que a minha versão do cristianismo era melhor ou pior que a versão que o Sadhu aceitou. É que ela me foi imposta, e nenhuma religião é boa quando imposta, pois ela não é uma conquista pessoal, ela se torna um fardo pesado, uma algema.

Escrevo algumas coisas neste blog como um desabafo, e tento expor algumas coisas que me incomodavam, como coisas que me incomodam hoje, e coisas que me alegram. Espero com isso ajudar alguém que, como eu, não aceita a religião que lhe foi dada, mesmo que nas melhores das intenções, e a qual, por melhor que seja para alguns, nunca será boa para ele. A quem encontrou nesta religião seu trunfo, a resposta para seus problemas, sua conquista pessoal, não tenho o que dizer. Mas para quem se sente preso, obrigado a viver interpretando o mundo de uma forma que simplesmente não lhe faz sentido, seja bem vindo.

Mas a verdade está em nós mesmos (ou quase)

Há pessoas boas e más em qualquer religião, e elas econtram todos os tipos de respostas, independente de em que versão de seres mágicos e fábulas acreditem. Encontra-se ensinamentos sábios em Buda, Jesus, Krishna, Maomé, e até no Mickey Mouse, assim como ensinamentos tolos. Mas estas pessoas (tirando o rato), tem em comum não se conformarem com as respostas que lhes deram. Cada uma delas, a seu tempo, trilhou o caminho mais difícil, pois sabiam que respostas fáceis todo mundo consegue, e as que realmente valhem a pena estão a anos de dedicação de distância.

Não que com isso eu esteja dizendo que "toda religião é válida", pois cada uma apresenta modos de realidade diferentes, e algumas delas simplesmente não batem com a realidade objetiva. De uma forma subjetiva, metafórica, muitas religiões oferecem ensinamentos poderosos, iluminadores para muitos. Se me perguntarem, inevitavelmente apresentarei minha predileção pela ciência, e uma interpretação completamente metafórica dos mitos, sejam eles cristãos, hindus, gregos.

Cientistas são meus exemplos. Desde os primeiros filósofos, que desenvolviam as mais variadas teses sobre o funcionamento do mundo, passando por tantos, como Platão, Newton, Galileu, Voltaire, Darwin, Einstein, estas pessoas eu admiro pela sua persistência em descobrir a verdade. Muitos passaram a vida inteira estudando, desenvolvendo suas teorias, testando-as exaustivamente, não aceitando as respostas fáceis, as dos simples "é assim por que é".

As espécies estavam aqui por que Deus assim quis, ou havia algo mais? E os fósseis, as camadas geológicas, o que elas querem dizer? Um dilúvio matou todo ser vivente sobre a terra, como, se não haveria água suficiente para isto? Por quê devo obedecer aos mandamentos de uns livros, que ninguém sabe ao certo quando e por quem foram escritos, e que comprovadamente sofreram a influência de gente de índole duvidosa, a fim de no final me tornar escravo de um deus? E se essa pessoa que se diz emissária de Deus estiver mentindo?

Questione, pense por sí mesmo, faça as perguntas que ninguém quer responder, não aceite as respostas fáceis, teste-as, verifique as fontes, verifique os efeitos reais. Seja lá qual for sua conclusão, ao final ela terá sido melhor do que apenas se deixar escravizar por uma filosofia que lhe causa mal.

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8 comentários:

Evaldo Wolkers disse...

Bill, Bill,

Meu grande amigo.

Acho que realmente fazemos parte da mesma escola filosófica.

Tudo que dissestes neste post eu diria sem acrescentar ou remover nenhuma palavra (mesmo não havendo castigo para tal,rsrs).

Expressões divinas.

Só tem um detalhes. Algumas das pessoas citadas, possivelmente não foram "pessoas", assim como o Mickey (rsrs, comento o fato de ter removido o ratinho da classificação "pessoas").

Abraços,

Evaldo Wolkers.

Eduardo Medeiros disse...

Bill, quero comentar três frases suas:

"É que ela me foi imposta, e nenhuma religião é boa quando imposta, pois ela não é uma conquista pessoal, ela se torna um fardo pesado, uma algema."


Não me admira que você hoje tenha ojeriza pela religião e relegue seu objeto de fé (Deus) a uma simples ilusão ou fábula.

Muitos dos teus questionamentos eu também já fiz há muito tempo. Em muitos deles, tomamos caminhos semelhantes.

Mas nada "imposto" pode criar raízes no sentimento antes de ir para o intelecto, principalmente a devoção religiosa, que por definição, deveria ser algo ao qual você acolhe por um sentimento, por algo que toca a tua existência.

Daí que a mim a religião nunca foi imposta, apesar de eu ter sido ensinado nos preceitos evangélicos desde criança. Nunca fiz essa associação de imposição. Para mim era algo normal ser cristão. É claro que com o desenvolvimento de uma mente mais crítica e menos crível, fiz várias desconstruções. Descontruí com a razão (o que pode ser por ela desconstruído) mas deixei o sentimento religioso, o sentimento pela transcendência intactos, como me vieram, creio, desde que nasci.


"A quem encontrou nesta religião seu trunfo, a resposta para seus problemas, sua conquista pessoal, não tenho o que dizer. Mas para quem se sente preso, obrigado a viver interpretando o mundo de uma forma que simplesmente não lhe faz sentido, seja bem vindo."

Eu concordo portanto, com esta tua afirmação.



"As espécies estavam aqui por que Deus assim quis, ou havia algo mais? "

Eu poderia refazer tua indagação: tudo o que veio à existência, inclusive a vida e a vida inteligente e consciente vieram por um acidente aleatório e cego ou existe algo mais?

Ninguém pode negar absolutamente que não haja um algo mais tanto na minha pergunta quanto na sua.

E que bom que teus exemplos são os cientistas, também o são para mim. Mas é evidente que você sabe que ser cientista e ser aberto à transcendência não são coisas incopatíveis. É que do jeito que você colocou é como se você pusesse os cientistas como seres puramente racionais, ateus, não dado a "fábulas e mitos"(como você diz), o que sabemos, não é verdade. Nem precisava dizer isto, eu sei, mas é só para quem ler,a quem estiver em busca da iluminação racional, entender o que estou dizendo.

abraços

Evaldo Wolkers disse...

Edu,

Segundo Max Muller, em toda religião há um esforço para conceber o inconcebível e exprimir o inexprimível.

Eu interpreto este pensamento de outra forma: "O que não tem explicação, explicado está".

Este é o problema da maioria das religiões.

Principalmente o cristianismo que, através de seu ego disse: "Nós temos a resposta para tudo, não precisamos de filósofos, pensadores e hereges questionadores".

Foi à partir daí que a religião começou a se tornar desprezível.

Se não há respostas, puta que pariu, não venha dizer que foi uma tartaruga gigante que fez.

Os religiosos (e alguns filósofos religiosos) quando não tinham as respostas diziam "Foi Deus".

Os mais céticos dizem simplesmente "Não sei".

Esta é a merda da religião, assumir respostas sem noção só porque não as tem.

Tô com Bill e não abro (não abro mesmo, huhauaau).

Evaldo Wolkers.

Eduardo Medeiros disse...

Wolkers, eu já disse que não quero mais debater religião com você mas vou comentar essa frase burra:

"O que não tem explicação, explicado está".

Muitas vezes não se tem a explicação simplesmente porque ninguém ainda achou a resposta certa. Isso foi verdade em toda a história da ciência.

É certo também que certas explicações da ciência são provisórias ou deixam margem para contestação.

a afirmação "Nós temos a resposta para tudo, não precisamos de filósofos, pensadores e hereges questionadores" cabe mais ao cientificismo do que à religião.


Então, o que não tem explicação ainda não tem explicação, mas um dia poderá ter.

Evaldo Wolkers disse...

Edu,

Acho que você não entendeu NADA do que escrevi.

A frase BURRA não é minha, a frase BURRA é da religião, que teima em "INVENTAR" respostas infundadas, como por exemplo:
"Se não sei quem criou o mundo, DIGO QUE FOI UMA GRANDE TARTARUGA AZUL".
Isto é a religião.
Certo?

"O que não tem explicação, explicado está" = "Foi Deus quem criou todas as coisas" = ACHAR UM "CULPADO" (rsrs).

Você inverteu tudo que eu disse.
Eu afirmo que o que não tem explicação é porque não se encontrou a resposta, EU AFIRMO ISSO!!!
Porém, a religião como SEMPRE, DÁ AS RESPOSTAS MAIS TOSCAS, enquanto a ciência diz simplesmente: "EU NÃO SEI !!!".

Entendeu?
Ciência = "Merda, eu não sei, estou procurando a resposta mas ainda não a tenho".

"Nós temos a resposta para tudo, não precisamos de filósofos, pensadores e hereges questionadores" -> Esta afirmação foi FEITA PELO CRISTIANISMO EM SEUS PRIMÓRDIOS.

Você não consegue resistir a um único comentário meu, então, não venha dizendo: "Eu não quero discutir mas vou falar uma última vez".

Abraços,

Evaldo Wolkers.

André Tadeu de Oliveira disse...

Parabéns pelo post, Gabriel. Muito bem escrito !

André Tadeu de Oliveira disse...

Caro Gabriel, obrigado pela visita em meu blog. Respondi suas ponderações.

PS : Por que meu post não foi publicado ?

Forte Abraço

André

Rogério Rezende disse...

Gabriel,

Já dizia Paul Tournier: "as religiões arrasam as almas."
Isso fica claro em Festa de Babete.
Um abraço.