E este povo só sabia orar. Doenças, secas, inundações, pragas, inimigos... ore um pouco mais, sacrifique mais animais, sacrifique algumas virgens, queime incenso, faça jejum, suba ao monte, quem sabe os deuses terão piedade de nós?
Desde tempos imemoriais, o homem luta com a natureza. Sendo mais um animal nesta terra, e esta sendo tão cruel como abundante com todos, enfrentamos a cada dia suas mudanças de temperamento.
De início, o homem caçaria e comeria o quê lhe desse sopa. Alimentar uma aldeia não era fácil, e morria-se por nada.
Ora, por causa de nossa capacidade cognitiva, logo começamos a criar relações de causa e efeito nos eventos naturais. O homem começava a entender a morte (provavelmente o neanderthal já a compreendia), e com isso, venerava aqueles que morriam para que tivesse vida. Pintava nas paredes suas caças, usavam adornos feitos de outros animais.
Logo surgiram as primeiras lendas, os mitos mais antigos. Usar o dente de um tigre como adorno conferiria bravura, sorte. Usar determinadas ervas livraria da desgraça. O homem começava a querer contornar as leis da natureza, queria dominá-las.
Por muito tempo, as crendices dominaram as sociedades humanas. De fato, as religiões são repletas delas. Bruxos, feiticeiros, xamãs, sacerdotes, desde muito tempo ganhavam fama por modificar o destino de alguém, até mesmo de um povo. Queríamos prever o futuro, desde o momento em que descobrimos o tempo, queríamos mudar as estações, fazer chover, para a chuva, impedir as pragas de aparecerem.
No fundo, o homem sempre quis dobrar a natureza. Passamos a não aceitar as leis impostas por ela, nos rebelamos.
Mas, ainda assim, tantas crendices nunca funcionaram como pretendido. Todos queriam crer que elas assim fizessem, e quando uma feiticeira curava uma simples indigestão com chá, logo cria-se que ela também poderia fazer vencer uma guerra. Não havia uma diferença entre curar uma doença e ver o futuro, tudo parecia tão mágico e possível quanto.
Só que o tempo passou. Percebemos que a natureza nunca se dobraria facilmente. Ela apenas tinha outras leis, que teríamos que aprender a usar. Uma doença se cura com um remédio, que virá da mesma gaia. Aprendemos que o futuro não se visualiza, mas se pode prever pelo raciocínio. Descobrimos que não é necessária a ajuda dos deuses para voar, nem de um pacto com os demônios, mas tão somente saber usar as leis da física do modo correto. Aprendemos a contar os dias, os meses, as estações. Aprendemos como evitar as pragas.
Aprendemos a vencer vírus, bactérias, câncers. Descobrimos como concertar um osso quebrado, como fazer uma criança nascer sem matar a mãe. Nos assombramos com o tamanho do Universo, quando finalmente vimos que somos apenas uma poeira entre tantas outras galáxias. Pudemos contemplar a minunciosidade da existência, a níveis quânticos, e talvez termos a possibilidade de entendermos os segredos mais profundos de Tudo.
Mas ainda hoje há quem acredita poder dobrá-la. Faz-se um círculo no chão, acende-se umas velas, reza-se alguns mantras, e mudará o futuro. Seu destino será alterado, a sorte sorrirá para você. Ou simplesmente dobre seus joelhos no chão e chore a noite toda, quem sabe assim aquele câncer se cure! Mas isto nunca funcionou.
Foi exatamente em deixando estas baboseiras para trás, em parar de crer que bastaria desejarmos para que as coisas aconteçam, foi que aprendemos que nada é de graça. Não fosse o trabalho duro de milhares de cientistas ao redor do mundo, durante tantos séculos, ainda sentaríamos a beira da fogueira esperando uma resposta dos espíritos. Morreríamos aos 30 de dor de dente, ou antes, de picada de cobra.
E tem gente que reclama que há pouca fé no mundo. Ora! Quando houve apenas fé no mundo, o que tinhamos? Guerras, mortes, perseguições. Devemos tremer perante a natureza, ou usá-la com sabedoria?
Querem que acreditemos que tudo foi feito por um Criador. E o que devemos fazer quando uma bactéria evolui e torna-se resistente aos antibiótios conhecidos? Curvaremo-nos perante a vontade deste ser sádico? Por quê ele está brincando conosco dessa maneira?
Alguns querem resolver os problemas do Brasil realizando correntes de oração, meses de dedicação especiais, oferendas aos orixás, consultas aos espíritos. Todos querem pegar um atalho, querem deixar nas mãos dos outros os problemas que nós temos que resolver. Acham que se abrissem mais igrejas no país, este seria melhor. Ah, se religião adiantasse de algo, o haiti seria o paraíso! Não. O que precisamos é de escolas, educação. Foi isso que sempre funcionou, é pelo conhecimento que o homem sempre encontrou as soluções de que precisava.
3 comentários:
bill, texto brilhante. tudo no lugar certo. ou quase tudo.
"Quando houve apenas fé no mundo, o que tinhamos? Guerras, mortes, perseguições"
você acha mesmo que quando só houver ciência e razão no mundo haverá paz, vida e respeito pelo próximo?
poderá a ciência um dia aplacar e resolver a busca humana por sentido?
não sei, e também não vou estar vivo para saber...
Ed, ciência e razão são as melhores ferramentas que temos para entender o mundo e resolvermos nossos conflitos. Mas elas não os excluem. Mesmo sem religião, contiuaremos sendo egoístas, gananciosos, odiosos, vingativos etc.
O fato é que religião alguma conseguiu melhorar a sociedade, pelo contrário, só fizeram aumentar o partidarismo. Enquanto há solidariedade entre os do mesmo clube, esta mesma religião é usada contra os que são de fora.
O fato é que foi na secularização da sociedade, da criação de Leis rígidas, do estrito cumprimento destas, da educação, etc, que muitas sociedades se tornaram mais justas.
A economia de mercado, a democracia, embora não completamente justas, são o melhor caminho. A divinização de sacerdotes e estabelecimento da fé como regra é o que dá força para ditaduras, governos autoritários etc. Não falo neste caso de algo religioso, necessariamente. Veja as ditaduras atuais, onde o povo é conduzido na ignorância, e é obrigado a obedecer seus líderes cegamente. Algumas usam a religião como subsídio, outras não, mas elas tem essa mesma base: apoiar-se na ignorância e na complacência do povo.
Os povos antigos acreditavam que seus líderes eram guiados pelos deuses, e eram portanto incontestáveis. Enquanto um povo crê nisso, dependerá do bom-humor dos mesmos. Se estes forem bons e generosos, talvez tenham uma vida tranquila. Mas quando seus líderes são maus, o quê podem fazer? São coagidos a nunca reagir.
Muito bom Bill.
Concordo plenamente contigo.
O conhecimento modifica o homem e este a sociedade.
Quando você busca conhecimento, acaba descobrindo quem você é e também quem são as outras pessoas.
O homem tem buscado respostas fora de si, muitas vezes descartando o que encontra pelo caminho (retenha o que é bom?) quando na verdade, creio que quanto mais informações ele "guarde" em si, menores serão suas necessidades destrutivas ou maléficas.
Imagine um homem que descobre em si uma doença e fica orando para obter compaixão dos deuses.
Agora imagine outro, que, ao se deparar com a doença busca conhecimento sobre a mesma, descobrindo sua incapacidade de curar-se ou de ser curado, ou até mesmo descobrindo a cura para tal doença.
Para mim, o primeiro estará se iludindo até a morte, acreditando que algo de bom pode fazer a doença sumir, enquanto o outro encontrará respostas boas ou ruins, mas, não ficará fantasiando.
Concordo que guerras e conflitos surgem na maioria das vezes de pessoas que "fantasiam" a realidade. Por exemplo Hitler, que a meu modo de ver, não enxergou a realidade, não buscou adquirir conhecimento pelo conhecimento, antes, criou um ideal ilusório para si.
Um grande abraço,
Evaldo Wolkers.
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