Considere por um instante o futuro. Estará ele definido?
A princípio, pode parecer que sim. Uma gota d'água que cai, certamente atingirá o chão em alguns segundos. Seu futuro é previsível.
Observe, no entanto, esta mesma gota percorrendo o chão. É impossível prever com precisão seu futuro.
Mas será que essa gota sempre iria tomar esta rota, e só nos falta a capacidade para prever o movimento?
A alguns anos atrás, diria-se que sim. Bastava-nos conhecer todas as variáveis, e desvendaríamos qualquer evento. Mas hoje sabemos que não é assim. Eventos quânticos são imprevisíveis, e fala-se em probabilidades.
O futuro, palavra que engloba o estado em que todas as coisas, mais conhecido como o Universo, estarão daqui a alguns instantes ou instante (o tempo pode ser dividido em partes iguais, ou é contínuo?), não pode ser previsto. Ele de fato não existe, ele é um conjunto infinito de probabilidades.
O conceito de futuro está intimamente ligado ao de tempo. O tempo ocorre à medida que o Universo se transforma. A cada evento, a cada mudança de estado, o tempo passa. Ele não "passa" no sentido de uma linha contínua a ser seguida, ele é apenas contado. Intrisicamente ligado está o conceito de "passado". Não é que corremos uma linha, como se fosse possível rebobinar a fita do tempo. Tempo é sempre contínuo para a frente. Mesmo que se tentasse voltar no tempo, nada mais estaríamos fazendo do que fazê-lo passar.
De modo que, ao usarmos termos como "passado" e "futuro", estamos falando de memórias e probabilidades. Passado é todo o conjunto de eventos que já ocorreram. Presente são os eventos que ocorrem, é o único tempo existente. Estes eventos de agora são influenciados pelos eventos passados, e de acordo com as probabilidades da física, encadearão outros eventos à frente.
Não há sentido em falar sobre passagem do tempo sem que haja mudança do estado do Universo. Num momento singular, onde não havia trocas de energias, nem matéria, e todo espaço se resumia a um ponto, não havia "passagem de tempo". Havia um só evento, o singular, que não tinha passado, não tinha efeitos causados por eventos anteriores (pois não havia nada antes), mas tinha um futuro de probabilidades pela frente. Talvez esta fosse infinitesimal para uma mudança, mas ela ocorreu. Aquela mínima probabilidade se mostrou possível, e ocorreu.
14,7 bilhões de anos depois, macacos pelados africanos evoluem e desenvolvem a mais improvável, mas natural, característica: a consciência.
10 comentários:
Amigo BILL,
Que texto magnífiiiiiccoooooOOoo!!
Parabéns garoto!
Eu nunca li um texto que detalhasse de forma tão concisa a questão do futuro que é imprevisível.
É por isto que dizemos que o futuro não existe, pois assim como o presente se desencadeia com coisas que aconteceram no passado, o futuro também vai depender do presente.
Se dermos um tiro em nossa cabeça, este fato do presente anula o nosso provável futuro.
E por aí vai...
É igual a questão da gota d'água, até o momento dela cair no chão é previsível, mas imagine se a jogássemos em um oceano?!
Adeus gota!!
Beijos.
Me tira uma dúvida, você é formado em que?!
oi Paulinha, que bom que gostou do texto. Sou estudante de ciência da computação, e pretendo ir para a área de pesquisa futuramente. Penso também em fazer física mais para frente.
Que ótimo,
Ciências da Computação...
Eu sou apaixonada pela área da computação, este ano vou arriscar vestibular para mudar de profissão.
Cansei de dar aulas!
Posso lecionar física, mas confesso que a matemática é menos complicada para mim. rss
Beijos amigo!
excelente texto, bill.
depois que o mundo quântico foi descoberto, as leis de newton se viram impotentes diante deste "admirável mundo novo". ali, nada pode ser previsto com certeza; é o mundo das incertezas e probabilidades. o que me impressiona há tempos é a tese de muitos físicos idealistas que no mundo quântico é o observador que determina um evento. se isso for verdade também no mundo do macrocosmo, todas as nossas certezas materialistas estarão em cheque, já que será a consciência que determinará ou produzirá a matéria e não o oposto.
acho isso fascinante. improvável? pode ser, mais é uma tese válida.
Ed, a tese não é a de que é o observador que determina um evento. O que se diz é que ao observar uma partícula sub-atômica, você tem que interagir com ela, e como estamos falando de uma partícula minúscula, qualquer interação afeta seu estado.
Isso tem a ver com o princípio da incerteza de Heinsenberg: http://pt.wikipedia.org/wiki/Princ%C3%ADpio_da_incerteza_de_Heisenberg
Entretanto, isto é válido para dimensões quânticas, e não tem nada a ver com o mundo macroscópico, no qual interagimos. Observar algo, imaginar algo, tentar "projetar" um evento, não faz mágica. Isso é coisa de Goswamis da vida, e não tem qualquer ligação com os achados da física quântica. É aplicação de esoterismo utilizando-se termos complicados da física.
É mais ou menos o que faziam os espíritas no século XIX, quando encaixavam o espírito e os poderes sobrenaturais no eletromagnetismo.
pois é como eu disse bill, o observador de uma forma ou de outra,afeta a partícula observada. mas o que de fato acontece, segundo alguns físicos é exatamente que é a observação que irá determinar o estado da partícula.
se eu fosse você não menosprezaria "os goswamis", já que o goswami é pós doutor em física e não recebeu esse título fazendo esoterismo.
valeu.
não sou eu que menosprezo o goswami, é que essa aplicação de esoterismo em física não encontra respaldo na própria física, e vai ver se o goswami tem algum artigo científico que corrobore sua crença?
bill, pelo que eu já li do goswami, ele escreve em primeiro lugar, ciência; daí eu dizer que ele não é pós doutor escrevendo esoterismo. e o que ele faz com sua crença espiritual não é bem esoterismo (nesse sentido depreciativo que você deve estar usando o termo); ele faz ligações da física com crenças espirituais muito antigas da tradição oriental. ou seja, algumas crenças espirituais antigas possuem paralelos na física moderna. o budismo possui muitos paralelos com a psicanálise assim como textos bíblicos. isso é um dado inclusive que tem despertado estudos no meio acadêmico.
vai lá na confraria dar seu parecer ao texto do marcio, suas colocações são fundamentais para as nossas discussões.
Eduardo, que o Goswami é formado em física, eu sei. O problema é que, em suas tentativas de linkar esoterismo e física quântica, ele não está fazendo ciência. Não publicou artigos científicos, não fez testes, experimentos, propôs novas teorias que validem suas idéias. Fez um filme porco que não tem nada de física e só desinforma (what the bleep do we know), e seus livros não tem crédito no meio científico.
O problema não é "desafiar a ciência ortodoxa". O problema é tentar fazer isso sem evidências, forçando a barra para que textos religiosos de milhares de anos atrás pareçam dizer o que a física diz, quando não o fazem, ou seja, tentando usar a ciência para validar suas crenças.
O dia em que os esotéricos-quânticos publicarem artigos científicos que validem suas idéias, aí sim valerão a pena ser lidos, estudados e considerados.
Bill,
O caminho percorrido pela gota d'água até o chão, dito por ti como previsível e afirmado pela Paulinha da mesma forma, não garante de fato a realidade daquilo que foi previsto.
A gota d'água pode sofrer diante de diversos fatores imprevisíveis até que suas moléculas toquem o chão. O caminho pode ser previsível, porém, o resultado final não.
Na verdade, nada é previsível, seja o presente, seja o futuro, e o que dizer do passado? Ele é relembrado, mas um dia, ele foi futuro e presente.
Abraços,
Evaldo Wolkers.
Postar um comentário