Segunda-feira, Junho 06, 2011

o rei

o rei parou na porta da floresta
caiu sob um joelho, apoiando-se na espada. suas forças haviam se extinguido, seus braços e pernas não mais lhe respondiam. todo o peso estava agora sobre seus ombros. em sua mente as esperanças se foram, seus escudeiros, fiéis heróis, todos caíram. sangue corria do seu braço ferido

sabia que não muito eles chegariam, e não teriam misericórdia.

mas por alguns instantes a floresta pareceu chamar-lhe. sentiu-se pequeno, insiginificante perante tudo aquilo. a luz do sol tentava entrar na floresta, mas nem ela conseguia. sentiu que ali estaria seguro, talvez, mesmo sabendo que, após adentrá-la, nunca mais voltaria.

sentiu medo, pela primeira vez. não pela sua vida, mas pela do seu povo. quando tomou posse, sabia que morreria cedo, e desde pequeno seu destino já era conhecido. mas esperava morrer envenenado, talvez engasgado ou em algum torneio estúpido. mas não com o destino de todo povo nas mãos, não alí, na porta da floresta negra.

estava muito perto para desistir. juntou o que lhe restava de forças e levantou-se. já ouvia os sinos atrás de sí, e pôs-se a andar, adentrando a floresta.

a séculos nenhum homem pisava nela, mas ao sentir o cheiro úmido de musgo e madeira podre, parecia ter nascido alí. quando criança ouvia as histórias de fadas e duendes que habitavam a floresta, e de como ela fedia.


sob seus pés o musgo macio escondia pedras cortantes, e caminhar estava ainda mais dificil. tinha que pisar cuidadosamente, desviar das raízes, apoiar-se nos troncos milenares. a cada escorregão, agarrava-se a um galho seco, ou a qualquer coisa que estivesse à mão, e por vezes a cortava.

as árvores pareciam querer sufocar-lhe. troncos largos, que não se podia abraçar, cresciam lado a lado. eram altas, tão altas que não se podia ver onde acabavam.

já não ouvia mais os sinos. provavelmente ganhara algumas horas de vantagem, pelo menos até que eles decidissem entrar na floresta. sentou-se na raíz de um cedro que parecia ser o mais velho ali. Tentou ouvir algo, mas um silêncio de morte seguiu-se. nenhum som. nenhuma ave solitária, nenhum inseto a zumbir. podia jurar que até as árvores eram mortas ali, não houvesse visto o verde das folhas.

- o que te trazes aqui?
- vim buscá-la
- é assim que os covardes chamam "fugir"?
- não sou covarde!
- talvez não seja, mas tolo, é
- isso não importa agora
- por que acha que eu a darei a ti?
- sempre me disseram que era assim que seria
- você sabe que não sairá daqui com vida. que serventia ela te terá, estando morto?
- eu não pensei nisto, não quero pensar
- pois é um tolo
- um tolo, como todos antes de mim.

dor. um som ao longe, assobios. um sussuro quase inaudível.

- a mão prateada, olhe-a

sentiu uma picada, e acordou assustado. olhou para sua mão, e arrancou a formiga que a fizera. ora, a floresta não era morta afinal. levantou-se enquanto lembrava vagamente de ter tido algum sonho, mas não podia lembrar o que era.

acordou com uma dor em sua nuca, e suas mãos amarradas. ainda estava na floresta. foi capturado? não, não estaria vivo. ouviu vozes, uma língua estranha. não entendia. parecia estar numa aldeia, havia uma casa de madeira na árvore mais à frente, e cheiro de raposa assada lhe atiçava o estômago (já não comia a dias).

como um raio apareceu em sua frente uma jovem, trajando longos vestidos brancos, mais linda que qualquer mulher do reino. sua pele não tinha falhas, seus olhos como um lago de cristal, seus cabelos longos, lisos e dourados, sua boca fina, delicada. por um momento o rei esquecera sua dor, e se perguntava quem era ela, e o que fazia ali.

pegou-lhe a mão ferida, e assoprou. quente. era como um sopro de fogo. quis tirar a mão, mas não conseguia. logo ela pegou seu braço e também o assoprou. quando soltou-o, viu que não havia mais ferida alguma.

quando falou, sua voz era doce como o mel. mas estranhamente familiar, já a ouvira antes, podia jurar.

- soltem-no, e deem-lhe de comer.

ela partiu, sem cerimônia alguma, sem explicar nada.

ele quis dizer algo, mas não conseguiu. pensou em fugir, mas também era impossível. deixou-se levar pelos dois homens que o soltaram sem dizer nada. ainda estava muito fraco. quando acordou, já não sabia dizer quanto tempo passara desde sua entrada na floresta.

4 comentários:

Eduardo Medeiros disse...

bill, instigante teu conto. ainda estou tentando captar o que há nas entrelinhas mas está difícil...

Gabriel Nagib disse...

ed, às vezes um conto é apenas um conto.

Eduardo Medeiros disse...

rssssss

beleza.

Evaldo Wolkers disse...

Bill,

Alguns homens no passado escreveram diversos contos, histórias, fatos aumentados gerando lendas.

O resultado foi que estes morreram, seus escritos foram tidos como mágicos, inventaram coisas que não existiam fuçando nas porras das entre-linhas e daí criaram diversas religiões.

Se algum deles pudesse sair do túmulo e dizer "era apenas um conto caraio", rsrs. Muitos cairiam do cavalo.

Por isso desisti de escrever, a gente não pode dizer o que quer dizer sem que achem que falamos outra coisa que não é aquilo que realmente queremos dizer.

Alucinam com base nos dizeres...

Abraços Bill.